Para se avaliar verdadeiramente o trabalho de um harpista precisa-se entender todo o processo que nós harpistas enfrentamos para levar a música as salas de concerto.
Somos um grupo pequeno no Brasil que temos muito amor pelo que fazemos. Mas, não é fácil se tornar um harpista.
Tudo que se diz respeito a harpa é caro:
Comprar uma harpa no Brasil mesmo que pra iniciar os estudos é como comprar um carro de luxo a vista:
Não existem harpas (de pedais) com preços econômicos que possam ser pagos parcelado ou com a nossa própria moeda, assim como podemos comprar violinos, violões ou pianos nacionais, nas lojas. Com harpa isso não existe, mesmo as harpas de pior qualidade, são caríssimas e não são encontradas em lojas brasileiras. Muitos profissionais demoraram muitos anos para conseguir seu primeiro instrumento, tendo que estudar nos das Escolas de Música ou de colegas ou professores.
A manutenção do instrumento é toda feita com peças importadas e caras assim como são as cordas que usamos. Não conseguimos entrar em uma loja em qualquer capital brasileira e encontrar cordas de harpa a venda. Tudo tem que ser importado por nós mesmos, com todas as taxas e ICMS aplicados sem dó.
Estudar harpa no Brasil é complicado:
Também pela falta de instrumentos no país, nem todos os Estados brasileiros contam com escolas de harpa. Ou não tem professor, ou não tem o instrumento para oferecer o curso. Muitos apaixonados pelo instrumento não tem outra escolha senão viajar kilometros de distancia para ter uma única aula de harpa; minha mãe, precisou, durante 2 anos dos seus estudos, viajar de 15 em 15 dias de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro para ter aulas de harpa com a professora Acacia Brazil de Mello da UFRJ porque em Belo Horizonte não tinha professor de harpa. Histórias como esta de esforço e loucuras para se aprender a tocar harpa são comuns aqui no Brasil, cada harpista tem uma história pra contar, uma dificuldade que teve que enfrentar para um dia, oferecer sua música para a sociedade.
Transportar o instrumento é trabalhoso e arriscado
A harpa é um instrumento grande e delicado, não dá pra transportar em qualquer veículo, tem que ser um que o acomode bem e não o deixe em má posição, pois isso pode prejudicar sua estrutura. A maioria dos harpistas contratam transportadoras, para que a harpa seja transportada por carros mais apropriados do que possui e por contar com ajudantes mais fortes já que o instrumento é pesado e desajeitado para ser carregado por uma pessoa só. Mesmo assim, os riscos da harpa arranhar ou quebrar durante o transporte são muito grandes.
É comum o harpista cobrar aluguel do instrumento (incluindo transporte) quando se apresenta com alguma orquestra que não possui harpa. Assim como pianos e percussão, as orquestras tem que possuir harpas em seus acervos, pois os harpistas não podem doar seu instrumento para ficar permanentemente nas salas das orquestras. Seria também inviável movê-las diariamente para suas casas e de volta aos ensaios como os instrumentos de pequeno porte.
A harpa é um dos instrumentos mais difíceis
Como se não bastasse, harpa é um instrumento muito complexo e difícil de tocar, são poucas as pessoas que possuem talento e conseguem dominar o instrumento com beleza e facilidade.
A harpa é também um dos instrumentos mais incompreendidos numa orquestra, onde os harpistas precisam preparar suas músicas com maior antecedência que outros músicos, para fazer todas as marcações de pedais e sobretudo resolver problemas de partituras mal escritas, que mesmo os melhores compositores encontram dificuldade em escrever dada a complexidade da harpa.
Harpa é um instrumento para eventos de luxo?
Diria que sim, todo este trabalho, os esforços e riscos que corremos com nossos instrumentos são naturalmente refletidos nos orçamentos que cobramos como artistas. Temos todo um investimento previamente produzido e pronto para servir a uma apresentação de harpa. Os produtores de evento não sabem nem a metade do que passamos para apresentarmos este belo instrumento; como disse antes, tudo que diz respeito a harpa é caro e trabalhoso, isso inclui também a nossa apresentação. Geralmente o harpista coloca um valor superior a outros instrumentos para cobrir estas despesas e trabalho extras que possui.
Dito isso tudo, no entanto, acho que o fato que mais valoriza o nosso trabalho é o encantamento que este lindo instrumento causa nas pessoas, sua sonoridade é realmente única e toca os corações além do seu belo e elegante visual que ornamenta qualquer ambiente.
Pagar por uma apresentação de harpa em um casamento ou em um evento, pode ser para poucos, como é nosso esforço para chegarmos onde chegamos, mas precisamos reconhecer nosso valor primeiramente nós mesmos, o que temos muita dificuldade em fazer como artista que somos. Não somos preparados para lidar com isso nas Universidades e sempre esbarramos uma vez ou outra com situações onde não gostaríamos de nos apresentar por não sermos devidamente reconhecidos ou valorizados, ou pior, situações onde você não gostaria que sua harpa estivesse pelos riscos desnecessários que ela pode sofrer.